sexta-feira, 17 de junho de 2011

Só a vitória interessa

No dia primeiro de julho a Argentina volta a ser o centro das atenções no mundo do futebol. O início da Copa América não desperta interesse apenas no continente sul-americano, mas também no velho mundo. Os europeus vêem para observar e azarar os craques que vão disputar a competição. Mas como todo torneio de futebol na Argentina, o jogo, a bola e a torcida são apenas detalhes. Os interesses políticos insistem em falar mais alto. Este é um ano de eleições presidenciais no país. E para piorar o cenário, Julio Grondona, “dono” da AFA espera se eleger pela oitava vez como mandatário da CBF deles. Diante desses dois processos, não tem como deixar de associar a Copa América de 2011 ao mundial de 1978.

O título lá em cima é uma alusão ao lema da seleção argentina na Copa de 78. Idealismo passado pelo General Videla, presidente do país à época e bradado dentro do vestiário por César Luis Menoti, técnico da seleção hermana. O país atravessava uma enorme crise, um período ditatorial. A realização da copa era um desafio político já que a Argentina era alvo de críticas do mundo todo. França, México e Holanda ameaçaram não participar do mundial. A preocupação em mudar a imagem política do país era tão grande, que no fim da década de 70, os argentinos ainda não tinham TV em cores, mas todo o mundo acompanhou os jogos em imagens coloridas. O governo militar investiu pesado no sistema de transmissão das partidas para maquiar a imagem argentina mundo a fora.

Videla escondia os problemas do país atrás dos jogos da copa. Iludia o povo argentino com a paixão pela seleção de futebol. Um verdadeiro contraste. O tapete verde dos cassinos de Mar Del Plata causavam inveja nos gramados onde os craques desfilavam. Os erros de arbitragem a favor da Argentina só aumentavam as suspeitas sobre a influência do governo militar na competição. Somente a Argentina poderia ser a campeã. Às vésperas da Copa América, o país vizinho passa por muitas dificuldades. Abandonou a ditadura, mas os antigos ideais ainda assombram a margem do Rio Prata.

As províncias que receberão os jogos são governadas por partidários da presidente Cristina Kirchner. A popularidade da mandatária é mediana. A imprensa do país sofre censura em pleno século 21 e a economia está no departamento médico. Em meio a este cenário, Cristina deve anunciar sua candidatura ao governo no início do torneio. E, claro, pegar uma carona no desempenho da seleção de futebol. Portanto, para o bem dos argentinos. Brasil, só a vitória interessa.

HENRIQUE TERRA

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Caminhando e cantando

Esta foi uma semana bastante agitada no futebol brasileiro e mundo a fora também. O Barcelona nos brindou com o melhor do futebol ao conquistar o título máximo na Europa. Por aqui tiveram início as finais da Copa do Brasil e o Santos de Neymar garantiu vaga na final da Libertadores. O planeta torce pelo peixe. Tudo para termos um duelo entre Messi e Neymar do outro lado do mundo. E para completar a semana, a FIFA reuniu os “ditadores” do futebol para as eleições na entidade. E é justamente o circo armado em Zurique, o nosso assunto principal.

Muita gente viu ou pelo menos ouviu dizer por ai as poucas notícias sobre os escândalos de corrupção na FIFA. Isso porque os principais grupos de comunicação do país não podem tratar a fundo o caso. O motivo dessa indiferença: contratos de exclusividade com a entidade que gerencia o futebol no mundo e com a CBF também. Desde 2002, a Copa do Mundo é transmitida em qual canal aberto? Isso é um contrato de exclusividade e dos mais caros. Mas nem todos são convidados e acabam ficando de fora da farra. Ainda bem, pois são esses excluídos que nos relatam a verdade.

Quarta feira, Joseph Blatter foi mantido mais uma vez no trono, não da para dizer que ele foi eleito. Desde 1998, ele comanda a entidade. As eleições foram realizadas em meio às denúncias de suborno. E o que é pior há informações de que o Catar teria comprado o direito de sediar a copa de 2022. Durante a reunião da FIFA, a Inglaterra tentou frear o pleito, mas foi barrada por um lobby favorável a Blatter. Os insurgentes foram os presidentes das Federações do Congo, Benin, Haiti, Fiji, todos campeões mundiais. Uma piada.

Mas o que me entristece não é essa ditadura no futebol mundial. O jornal Estado de S. Paulo mandou um repórter para cobrir as eleições da FIFA. Ao entrar no site do “estadão” para acompanhar as notícias de Zurique, a vergonha. 20 anos após a abertura política no país, o jornal está sob censura há 672 dias. Um diário com mais de um século de existência, que atravessou e sobreviveu a época dos militares no Brasil, mas em 2011 está proibido pela justiça de se expressar livremente.

Henrique Terra